O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR, VIVARIUM e ABREM. Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Como estudar os Vikings e a Era Viking no Brasil



COMO ESTUDAR OS VIKINGS E A ERA VIKING NO BRASIL

                                Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)

Os vikings definitivamente estão na moda. Aliás, estão quase em qualquer lugar: nos quadrinhos, no cinema, na televisão, na música, nas artes plásticas, na mídia comercial, etc. Muito além de um sucesso momentâneo, diversas pessoas acabam se identificando com a temática nórdica e procuram inserir suas paixões e interesses em algum curso superior que esteja frequentando ou ainda, que tem a meta de frequentar. Neste caso, a maior dificuldade é encontrar material em um país que não possui tradição acadêmica no tema da Escandinávia da Era Viking. O maior intuito deste pequeno ensaio é fornecer alguns parâmetros que possam auxiliar os jovens investigadores em sua jornada inicial pelo mundo nórdico. No início, concedemos alguns elementos bibliográficos. Logo a seguir, algumas considerações sobre temas de pesquisa e no desfecho, possíveis locais para estudo.

1. Como estudar: Fontes e bibliografia secundária

Primeiro teste de capa do Dicionário de História e Cultura da Era Viking


Em língua portuguesa não existem muitos livros a respeito deste tema. A maioria são obras genéricas e pouco detalhadas, algumas inclusive muito desatualizadas. No início, o melhor é sempre possuir uma grande obra de consulta e de referência, neste caso não há nada melhor do que o Dicionário de História e Cultura da Era Viking, que será publicado brevemente pela editora Hedra de São Paulo. Com aproximadamente 900 páginas, o livro conterá 228 verbetes escritos por 33 especialistas nacionais e estrangeiros, além de um prefácio escrito pelo arqueólogo Neil Price. Contando com verbetes específicos sobre localidades, sítios arqueológicos, personalidades e períodos históricos, o dicionário também incluirá conceitos extremamente importantes aos novos pesquisadores, como os verbetes Viking, Era Viking e Escandinávia, discutidos de um ponto de vista conceitual e historiográfico. Algumas entradas envolverão temas pouco discutidos entre os pesquisadores, como Agricultura, Aparência e costumes, Estupro, Suicídio, Sexo e sexualidade, entre outros. A bibliografia apresentada ao final de cada verbete também é extremamente atualizada ou se utiliza de clássicos consagrados da área.



Uma publicação ainda sempre relevante em língua portuguesa é Os Vikings, de James Graham-Campbell, publicado em um único volume pela editora Folio em 2006 e em dois volumes pela editora Del Prado em 1997 (Os Viquingues). Trata-se de um grande atlas cultural da Escandinávia, tratando de sua história, desde o Neolítico até o final da Era Viking, trazendo diversos textos separados sobre sítios arqueológicos, com muitos mapas, fotografias e imagens bem detalhadas. O livro pode ser facilmente adquirido em sebos físicos e virtuais.



Outra obra muito importante como material de referência é The Viking World, editado por Stefan Brink (Routledge, 2012), contendo dezenas de estudos sistematizadores sobre o mundo nórdico, divididos em três grandes temas: a Era Viking na Escandinávia; a expansão nórdica pelo mundo; a relação da Escandinávia com a Europa e suas consequências. Cada capítulo possui farta descrição bibliográfica e com forte referencial arqueológico.

Extremamente importante para todos os pesquisadores é o acesso aos documentos medievais. O Dicionário de História e Cultura da Era Viking possui dezenas de verbetes tratando deste tema, também reunidos na entrada Fontes Primárias. A seguir enunciamos algumas destas fontes analisadas neste referido livro e suas traduções e disponibilidade na internet:



Sagas do Atlântico Norte: uma das poucas obras publicadas no Brasil traduzidas diretamente do nórdico antigo por Theo Moosburger, integrantes da edição Três sagas islandesas (A saga dos groelandeses e A saga de Eirikr Vermelho, UFPR, 2007). Constituem alguns dos textos mais importantes para o estudo da presença e colonização nórdica na América.

A saga de Njál: talvez a mais importante e famosa saga islandesa, constituindo um documento primordial para o estudo da sociedade nórdica durante o medievo. A saga de Njál é disponível em uma tradução integral de Theo Moosburger em sua tese de doutorado (UFSC, 2014),online.



Documentos franceses: O livro As invasões Normandas: uma catástrofe? (Editora Perspectiva, 1997), de Albert D´Haenens, reúne os excertos de 15 crônicas francesas alto medievais relatando ataques nórdicos pela França (entre as páginas 88 e 99). São importantes relatos sobre o impacto nórdico durante a Alta Idade Média europeia.

Crônica anglo-saxã: Uma das mais importantes séries de documentos medievais tratando dos nórdicos e sua presença na Inglaterra. Foi parcialmente traduzido ao português por Robert Taylo, disponível online.

Batalha de Maldon: importante batalha entre vikings e anglo-saxões, traduzida ao português por Glauco Roberti (Dissertação em Letras, USP, 2006).


Sagas de Família (ou dos islandeses): um dos subgêneros de sagas mais utilizadas pelos historiadores, tanto para o estudo da Era Viking quanto da sociedade nórdica medieval. Uma boa coletânea em inglês é The sagas of ícelanders: a selection (Penguin, 2000).

Landnámabok: disponível em tradução ao inglês por Herman Palsson and Paul Edwards (The book of settlements, University of Manitoba, 2007).

Íslendigabók (tradução de Faulkes e Finlay ao inglês disponívelonline). Dois documentos imprescindíveis para o estudo da colonização nórdica na Islândia.


 


Poesia escáldica: uma série de poemas de elogio que possui diversas referências históricas. Em inglês exista a famosa coletânea de Turville Petre (Scaldic Poetry, Oxford University Press, 1976) e em espanhol a de Luis Lerate (Poesia Antiguo-Nórdica, Alianza Editorial, 1993).

Crônica dos anos passados (Crônica primária russa): um dos mais importantes documentos para a história dos nórdicos no Leste europeu. Uma conhecida tradução ao inglês foi realizada por Samuel Cross e Olgerd Wetzor em 1953, disponível online.


Grágás – conjunto de leis islandesas do século XII, muito útil para estudos sobre a sociedade, legislação, política, costumes e tradições do mundo nórdico medieval. Foi traduzido ao inglês em 2007 por Andrew Dennis e Peter Foote (Laws of Early Iceland, University of Manitoba) em dois volumes.


Ibn Fadlan – o mais famoso cronista árabe sobre o mundo nórdico da Era Viking, extremamente importante para o estudo da religiosidade e dos costumes funerários. Recebeu uma tradução ao inglês em 2012 por Paul Lunde (Ibn Fadlan and the Land of Darkness, Penguin).

Historia Norwegiae: um dos mais antigos e importantes documentos sobre a história da Noruega no medievo, originalmente escrito em latim e traduzido ao inglês por Devra Kunin, disponível online.

Historia de antiquitate regum norwagiensium, de Theodoricus Monachus. Outro importante documento sobre a história da Noruega medieval, traduzido ao inglês por David e Ian McDougall, disponível online.



Heimskringla: a famosa história dos reis da Noruega, de Snorri Sturluson, uma série de sagas islandesas do subtipo sagas reais. Possui a clássica tradução de Lee Hollander (University of Texas, 2009) e a nova tradução de Alison Finlay e Anthony Faulkes (dividida em três volumes) e disponível online.



Gesta Danorum: famoso documento sobre a História da Dinamarca, escrito por Saxo Grammaticus. A tradução ao inglês por Oliver Elton (1905) está disponível online.



2. O que estudar: temas para pesquisa

Essa sempre é uma dúvida constante de qualquer graduando que se inicia nos estudos nórdicos. Nunca é fácil opinar a alguém em qual tema deva investigar, mas o mais recomendado é que o iniciante tenha sempre um conhecimento geral sobre a Era Viking, nos seus mais variados aspectos: História, literatura, sociedade, religião e mitologia, Arqueologia, economia, política, etc, com o intuito de poder definir em qual campo vai querer se especializar (como o tempo, é claro). A partir disso, cada campo específico possui seus temas mais originais ou que são pouco conhecidos e difundidos no Brasil. Cabe sempre ao pesquisador ter o bom senso de equilibrar a originalidade com a qualidade na pesquisa. Nem sempre as pesquisas mais recorrentes em um assunto necessariamente esgotam as possibilidades de investigação – novos olhares, novas perspectivas teórico-metodológicas podem contribuir para uma revisão em campos consagrados.

O interessado pode acessar algumas publicações historiográficas que concedem um razoável panorama das investigações conduzidas no Brasil até o presente momento, ajudando em escolher alguns parâmetros nas novas pesquisas: Estudos Nórdicos Medievais: alguns apontamentos historiográficos e Uma breve historiografia dos estudos brasileiros de religião nórdica medieval.

Também os artigos publicados pelos membros do NEVE podem fornecer uma certa base na escolha de novos temas.

https://www.facebook.com/groups/gruponeve


Outro modo de escolher as temáticas, mas também os recortes mais precisos e mesmo as metodologias e opções conceituais é o intercâmbio com outros pesquisadores mais experientes na área. Neste sentido, os interessados podem se filiar ao grupo do NEVE no facebook e utilizar este instrumento para sanar suas dúvidas, seus questionamentos e suas incertezas frente a esse campo.


3. Onde estudar: cursos e programas de pós graduação

A área que possui a maior tradição de conter pesquisadores do mundo nórdico no Brasil é a de História, especialmente devido ao fato da maioria dos cursos de licenciatura e bacharelado possuírem a disciplina de História Medieval, onde parte do conteúdo de Era Viking é vislumbrado. Muitos professores dessa disciplina acabam aceitando a orientação de projetos de iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso em temáticas escandinavas.


Do mesmo jeito, muitos medievalistas vinculados a programas de pós graduação em História, Letras e Ciências das Religiões são receptivos a temas nórdicos. A maioria das pesquisas ainda se concentra em temas relacionados a religiosidade e mitologia (ver tabelas finais neste artigo historiográfico), sendo que o programa atualmente com maior quantidade de pesquisas é o da Universidade Federal da Paraíba (Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões).                                                                      

Com o aumento das pesquisas, traduções e publicações, certamente esse panorama deve mudar consideravelmente nos próximos anos, auxiliando ainda mais as futuras gerações de novos investigadores da Escandinávia.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Símbolos vikings e umbandistas: cópia ou coincidência?


 
  
SÍMBOLOS VIKINGS E UMBANDISTAS: CÓPIA OU COINCIDÊNCIA?

Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)

Há alguns anos circulam pela internet algumas indagações sobre a semelhança entre símbolos mágicos utilizados pelos vikings e os pontos riscados da Umbanda e suas possíveis conexões ou influências mútuas. Em parte isso se deve à crescente popularidade dos nórdicos pela mídia televisiva, mas também pela imensa difusão de tatuagens no mundo pop, como o símbolo de um vegvisir usado pela cantora islandesa Björk em um dos braços ou pelas bandas de viking metal. Vamos esclarecer alguns pontos sobre a área nórdica e em seguida algumas considerações sobre a Umbanda, para em seguida realizarmos algumas conclusões sobre o assunto.
 
A cantora Björk e sua tatuagem de vegvisir
 
  
Tatuagens com ægishjálmur
 

Símbolos vikings e renascentistas:

Em primeiro lugar, ocorre uma certa confusão com o termo viking. Os grafismos simbólicos considerados hoje em dia como vikings foram retiradas de obras islandesas escritas durante o século XVI e XVII, muito depois da Era Viking. Alguns destes símbolos realmente são nativos, conhecidos durante o período das migrações germânicas até o final do século XI, como a suástica (também utilizada por diversos outros povos euroasiáticos e relacionada tanto a Odin quanto a Thor, vide Langer, 2017) e o Hrungnisjarta a partir do século VIII. Nas fontes medievais, a palavra viking surge relacionada a uma atividade temporária, geralmente náutica e predatória e em alguns casos possui certa identidade cultural, mas no imaginário contemporâneo ela acaba sendo sinônimo de nórdico em geral (Langer, 2018). Neste caso, a aplicação do termo viking aos símbolos islandeses é equivocada.

Os símbolos mágicos que nos interessam dos grimórios islandeses (grande manuais de práticas mágicas) são especialmente o vegvisír (um símbolo mágico utilizado para as pessoas encontrarem o caminho durante tempestades ou períodos nublados) e o ægishjálmur (utilizado para proteção e feitiçaria). Somente esse último foi registrado anteriormente pela literatura durante o período medieval, mas não se conhecem imagens preservadas dele antes do século XVI. Diversos pesquisadores questionam se ele realmente teria sido utilizado pelos guerreiros em seus elmos durante a Era Viking (750 a 1100 d.C.), sendo mais visto como uma figura puramente literária e mitológica (Foster, 2017). Neste sentido, não há como comprovar ou sequer referendar o uso da expressão símbolos vikings a esses dois grafismos dos grimórios.
 
 
Ægishjálmur, Galdrakver, Lbs. 143 8vo, Islândia, 1670.
 

O mais antigo dos grimórios islandeses foi o Galdrabók, datado de 1600, contendo diversos encantamentos e invocações a entidades cristãs, demônios e deuses nórdicos. O material rúnico contido neste manuscrito é percebido como uma expressão nórdica tardia de tradições mágicas mediterrânicas. Muitos símbolos são variações latinas de cruzes e de runas (Macleod e Mees, 2006).

O Ægishjálmur foi citado primeiramente no Fáfnismál 16, 17 e 19 (Codex Regius da Edda Poética). Neste poema éddico, o símbolo traria vitória a seu possuidor (segundo o dragão Fáfnir), e no mesmo poema, alude-se a pertencer ao tesouro de Sigurðr, de onde se deduz que estaria gravado em um elmo. Ao mesmo tempo, essa descrição de um objeto mágico na cabeça de Fáfnir tem relação com uma tradição européia que remonta aos gregos e que sobreviveu até o fim da Idade Média: de uma pedra que os dragões possuíam em suas cabeças (snakestone ou dracontite), utilizada para fins curativos; e por outro lado, com o olhar mortífero que este tipo de monstro teria (o “olhar de fogo”). Em algumas sagas islandesas, como Sverris saga 38, o símbolo também é citado como proteção nas batalhas.

 
Vegvísir, manuscrito Huld, p. 60, Geir Vigfússon, Islândia, 1860.
 
Para o pesquisador alemão Rudolf Simek (2007, p. 2) as características terríveis do Ægishjálmur foram originadas do classicismo, derivados do grego aigis (como o escudo de Zeus e a capa de Pallas Atenas). A palavra grega aigis pode ter se tornado elmo do terror na etimologia folclórica como resultado da similaridade fonética com o nórdico œgr, terrível. E apesar da derivação etimológica, Ægishjálmur não teria relação com o gigante marinho Ægir.

Alguns especialistas traduzem Ægishjálmur como leme do pavor ou de Æegir, devido ao seu formato nos grimórios, um círculo formado de oito braços em forma de tridentes, assemelhando-se ao leme de roda das embarcações. O problema é que esse tipo de instrumento náutico só foi conhecido na Escandinávia a partir do século XIII: os vikings utilizavam um remo transversal como leme. Como Æegir era uma divindade relacionada ao mar, talvez os eruditos nórdicos do final do medievo tenham fundido a este folclore o tridente de Netuno, explicando a sua morfologia (ou mesmo o tridente do demônio, utilizado no imaginário cristão). De qualquer maneira, não há imagens deste símbolo anterior ao século XV, e não temos como provar que existiu entre os vikings. Segundo Macleod e Mees (2006, p. 252), o Ægishjálmur foi uma forma cruzada e adaptada do símbolo tvímadr, presente no calendário rúnico do século XIII.

Sintetizando, a morfologia conhecida do Ægishjálmur possivelmente foi originada de uma confluência tardo medieval entre tradições clássicas e cristãs (o tridente), aplicada a caracteres não alfabéticos (o tvímadr), não tendo relação direta com a tradição rúnica antiga.
 
Os símbolos de Exu:

A Umbanda possui diversas manifestações visuais sagradas conhecidas como pontos riscados, em especial o da Pomba gira Menina. Um círculo (considerado o universo da perfeição); um tridente (associado a Exu), hexagrama e triângulos entrelaçados - estes sendo associados a rituais (Sampaio e Gnerre, 2012). Segundo Solera (2014, p. 31), os sinais e símbolos umbandistas correspondem a várias tradições advindas de religiosidades e diferenciadas historicamente, como o Espiritismo, judaísmo, cristianismo e etnias indígenas e africanas.

O símbolo do tridente do Exu na Umbanda é uma apropriação derivada do sincretismo religioso moderno, não tendo uma origem puramente africana (Sodré, 2009, p. 5). O Exu é uma entidade Iorubá relacionada com a fertilidade, cujos simbolismos mais conhecidos são um porte fálico, cabaças e búzios. A Umbanda possui suas origens a partir de 1908, derivada essencialmente de diversas tradições brasileiras, indígenas e africanas. Devido a fortes perseguições e associações do Exu com a figura do diabo judaico-cristão, os adeptos da Umbanda (em uma forma de resistência cultural) passaram a adotar os simbolismos típicos da tradição medieval relacionada a Satã: este orixá passa a ser representado de cor vermelha, com chifres e tridente (a exemplo do Exu das sete encruzilhadas e Exu caveira). O tridente, deste modo, foi um símbolo derivado do imaginário judaico-cristão sobre a figura de Exu, mas que recebeu outros significados adaptados, como os diversos caminhos que o orixá percorre e domina (Sodré, 2009, p. 9 e 12).
 
 
Ponto riscado Pomba Gira Menina; Ponto riscado Exu tranca gira. Fonte: http://umbandapaijoaodeangola.com.br/pontos-riscados-exu.php
 

Não existem pesquisas mais detalhadas ou profundas sobre a iconografia simbólica afro-brasileira. De nossa parte, realizamos alguns levantamentos historiográficos para detectar possíveis origens coloniais dos símbolos com tridente na religiosidade popular brasileira, mas não conseguimos nenhum resultado. Analisando Souza (1986) e Calainho (2008), percebemos que os símbolos adotados por escravos brasileiros durante o período colonial são influenciados pela forma de cruzes latinas, Sol, estrelas, serpentes, caveiras e flores, mas não existe nenhuma referência a tridentes ou qualquer similitude com os ponto riscado de Exu antes do século XIX, reforçando sua origem contemporânea.

Conclusão:

De um ponto de vista histórico, os símbolos islandeses e os pontos riscados dedicados a Exu não possuem qualquer tipo de conexão, influência ou aproximação. Suas similitudes são apenas frutos de uma coincidência morfológica. Ambos parecem ter sido influenciados pelo imaginário cristão, que ressignificou tradições nativas de práticas mágicas com o referencial do tridente. Outras tradições religiosas que possuem símbolos circulares com terminais tridentiformes, como a ashtánga yantra da tradição shivaista, também foram relacionados ao Ægishjálmur – mas do mesmo modo alguns pesquisadores vem descartando essa similitude, considerando uma simples coincidência (Foster, 2017).

Explicações para as similitudes entre símbolos de culturas afastadas no tempo e no espaço são populares hoje em dia, geralmente apelando para referenciais como “emanações do inconsciente coletivo” ou produtos arquetípicos, mas não passam de especulações sem bases mais rigorosas de investigação. O medievalista francês Michel Pastoreau conclama para o perigo de anacronismo constante que ronda o historiador quando estuda o simbolismo e a fragilidade da análise universalista: “O que às vezes leva – erradamente – a crer na existência de uma simbólica transcultural, apoiada em arquétipos (...) no mundo dos símbolos, tudo é cultural e deve ser estudado em relação à sociedade que dele faz uso, em determinado momento de sua história e em um contexto preciso”. (Pastoreau, 2002, p. 507).

Comparações apressadas utilizando apenas a morfologia, sem um contexto histórico e social mais rigoroso, podem criar conclusões fantasiosas como as que relacionam conexões transcontinentais entre os povos pré-colombianos e os do Velho Mundo – utilizando simplesmente a coincidência do formato das pirâmides que existem entre ambos. Os símbolos mágicos constituem um terreno ainda repleto de possibilidades para pesquisas futuras, mas os referenciais generalistas e universalistas devem ser evitados pelas próximas gerações de pesquisadores.

Referências bibliográficas:

CALAINHO, Daniela Buono. Metrópole das mandingas: religiosidade negra e inquisição portuguesa no antigo regime. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.

FOSTER, Justin. Galdrastafir: icelandic magical staves, 2013-2017.

FRANÇA, Dilaine Soares Sampaio & GNERRE, Maria Lucia Abaurre. Um olhar sobre os trânsitos simbólicos afro-indianos. Religare n. 9(1), 2012, pp. 1-10.

LANGER, Johnni. Viking. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de História e Cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, 2018 (No prelo).

LANGER, Johnni. Animais, suásticas e símbolos celestes na Escandinávia (séc. V-XI d.C.). V Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos, UFPB, 2017 (Palestra de Mesa Redonda não publicada).

LANGER, Johnni. Símbolos rúnicos. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de Mitologia Nórdica. São Paulo: Hedra, 2015, pp. 468-470.

LANGER, Johnni. Símbolos religiosos dosvikings: guia iconográfico. História, imagem e narrativas n. 22, 2010.

 MACLEOD, Mindy & MEES, Bernard. Runic amulets and magic objects. London: Boydell Press, 2006.

PASTOREAU, Michel. Símbolo. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (Org.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. São Paulo: Edusc, 2002, volume I.

PRANDI, Reginaldo. Exu, de mensageiro a diabo: Sincretismo católico e demonização do orixá Exu. Revista USP n. 50, 2001.

SIMEK, Rudolf. Ægir´s helmet. Dictionary of Northern Mythology. London: D.S. Brewer, 2007, pp. 2.

SODRÉ, Jaime. Exu: a forma e a função. Revista VeraCidade 4(5), 2009.

SOLERA, Osvaldo Olavo Ortiz. A magia do ponto riscado na Umbanda esotérica. Mestrado em Ciências das Religiões, PUC-SP, 2014.

SOUZA, André Luiz Nascimento. É o cão: Uma análise sobre a construção da imagem de Exu como diabo cristão. VII Encontro Estadual de História da Anpuh RN, 2016.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de santa cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1986.