O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


domingo, 14 de janeiro de 2018

Uma introdução à saga dos Groelandeses


Chegada dos nórdicos à Groelândia, Tom Lovell, National Geographic 137 (4), 1970, p. 533.





Erica Tavares da Silva

Graduanda em História pela UNISA, Universidade de Santo Amaro

Orientação: Profa. Dra. Adriana Anselmi Ramazzina (USP-UNISA)





Aproximei-me da cultura nórdica através de uma visão exótica e ficcional das produções cinematográficas, artísticas e literárias, contudo, percebi que muitas vezes essas produções demonstram uma perspectiva estereotipada em relação à Escandinávia Medieval, portanto, com esta pesquisa, busco compreender como era a sociedade medieval nórdica através das Sagas Islandesas. As sagas são um conjunto de textos escritos pelos islandeses dos séculos XII ao XIV relacionados aos acontecimentos dos séculos X e XI, onde é descrita a história de famílias ou linhagens históricas da Islândia Medieval, portanto há uma relação com os Vikings, pois essas sagas abordam os feitos guerreiros.

O objetivo central é compreender mais sobre a Era Viking através de uma fonte primária, visto que no Brasil a popularidade desse gênero literário é pouco difundido e com poucas traduções confiáveis. Buscar compreender mais detalhadamente a sociedade nórdica medieval e a sua cultura através da Saga dos Groenlandeses utilizando a tradução em português datada em 2007 de Théo de Borba Moosburger, doutor no curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina.

A pesquisa consiste na análise crítica da fonte escrita visando buscar elementos que permitam compreender e reconstituir a sociedade nórdica Islandesa Medieval. Perceber como os islandeses retratavam a si mesmos e a sua sociedade na Saga dos Groenlandeses que foi composta no século XIII com a intenção de narrar a descoberta da atual Groelândia pelos nórdicos medievais.

A pesquisa está dividida em temas onde serão abordados de forma breve quem foram os nórdicos, e como sua imagem de bárbaro foi construída ao longo da História. Também será discutido a fragmentação do Período Viking e como os historiadores delimitaram esse momento histórico. Para compreender e analisar a sociedade medieval nórdica será esclarecido o que são as Sagas Islandesas para então abordar a Saga dos Groenlandeses.



Vikings

Os Vikings foram povos de origem germânica[1] que habitaram territórios da Noruega, Suécia, Dinamarca e ilhas da Islândia. Houve também regiões do continente americano que recebeu influência e colonização dos Vikings.

Os Vikings são conhecidos atualmente devido a cultura de guerreiros que tiveram durante a Idade Média, a forma com que realizaram suas expedições e saques na Europa Ocidental Cristã iniciadas em meados do século VIII em um mosteiro da região de Lindisfarne da Inglaterra o levaram a ter a fama de piratas pagãos, bárbaros, infiéis, sanguinários e etc. O próprio termo Viking é usado na primeira vez fora das Crônicas anglo-saxônicas para designar atividades de saque e pirataria, já nas fontes escritas em línguas de habitantes da Escandinávia na Era Viking salienta a ferocidade[2] desses povos:



Pela descrição do historiador Julian D. Richards começamos a perceber que é a compreensão moderna da palavra e do período que acabou por vincular estes homens aos ataques de pirataria e saque, além de vincula-los a ideia de que estes eram bárbaros ferozes que atacavam as igrejas no período medieval, saqueavam as mais diversas localidades da Europa, matavam muitos clérigos além de serem até mesmo considerados como verdadeiros demônios na terra. (AYOUB, 2012, p. 2)



A imagem do bárbaro é muito mais antiga do que a construção e equiparação aos nórdicos, originalmente a palavra foi criada para diferenciar as línguas estranhas ao idioma tradicional, ou seja, as pessoas que não compartilhavam de uma mesma concepção de uma determinada civilização eram chamadas de bárbaras. Mais tarde o conceito foi abarcando significados diferentes como com os povos germanos e tornou-se uma forma de identificar os povos que não eram cristãos, logo, os pagãos não estavam inclusos nos princípios de conduta e boas maneiras.

De acordo com a atual historiografia não podemos tratar esses povos como inferiores, nossa função deve procurar desmistificar esses povos e compreender esses comportamentos de acordo com os acontecimentos históricos. Por fim, utilizamos o termo Viking para designar os povos da Escandinávia Medieval, porém, no Período Viking esses povos se identificavam através de sua região.



Era Viking

A Era Viking é datada pelos historiadores no início do ano 793 justamente devido ao ataque no mosteiro de Lindisfarne e termina no século XI após o processo de cristianização dos países da Escandinávia. Esse momento é marcado por expansões marítimas que tinham objetivos como comércio, saques e até mesmo povoar outras terras. Há também um desenvolvimento de cidades e aumento de produção de vários itens como joias e armas.

Já os arqueólogos afirmam que as datas são diferentes, pois, analisam provas materiais de modificações culturais e não apenas fato histórico, as modificações culturais se alteram por diversos motivos e se manifestam de modos distintos. Essas alterações podem gerar uma nova forma de organização social através de influências externas que começaram a surgir devido ao conhecimento de outros lugares por meio das invasões e contato com o cristianismo.

As tentativas de conversão do Norte se deram com interesses políticos e comerciais, aos poucos, os nórdicos foram se aproximando de um estilo de vida diferente. É possível observar essas influências através da arte e objetos decorativos, moedas, cerâmica e vidros. Portanto, o começo da Era Viking se dá no distanciamento do modo de vida anterior e na adjacência de uma cultura transformada na segunda metade do século VIII. A incursão de Lindisfarne em 793 é, portanto, a manifestação externa de um processo que se iniciou em 50 anos antes; a introdução da Escandinávia na Europa (CAMPBELL, 2006, p. 38).



Sagas islandesas

As Sagas Islandesas são um conjunto de fontes literárias escritas principalmente nos séculos XIII e XIV na Islândia medieval. São narrativas em forma de prosa em Nórdico Antigo[3] onde descrevem histórias de famílias, heróis, linhagens, lendas, entre outros.



As sagas islandesas constituem um dos conjuntos literários mais importantes e originais da literatura medieval. Como uma das principais fontes para o estudo da sociedade Viking e também do período feudal-cristão, a relevância das sagas hoje transcende os estudos escandinavos e articula-se com um vasto campo das pesquisas culturais sobre o Ocidente medieval e moderno. (LANGER, 2009, p. 1)



A palavra “saga” vem do nórdico antigo e significa “história”, também está relacionada à segja do verbo islandês e significa “falar”, “recontar”. Portanto, o objetivo das sagas é relembrar o passado tratando de vários temas como: antigas lendas germânicas, biografias de reis, aventuras, entre outros. O estilo de narrativa é factual, sucinto e acelerado. Enfatiza um personagem e seus grandes feitos. As sagas não são lendas, são um gênero literário que no passado eram transmitidas através da oralidade:



As sagas teriam uma grande afinidade com as epopéias (como a Ilíada, a Canção de Rolando, o poema de Mio Cid, etc), pois ambos os gêneros seriam pautados na constituição de uma identidade cultural de fundo histórico, mas diferenciando-se por serem narrativas prosaicas e não poéticas (MOOSBURGER, 2009, p. 21).



É importante ressaltar que quando as sagas foram produzidas, a Islândia havia sido convertida ao catolicismo, desse modo, há mudanças sociais radicais acontecendo nesse momento histórico. Os deuses pagãos foram aos poucos sendo identificados com demônios e a religião pagã foi sendo apagada dando lugar ao cristianismo. Com a introdução da cultura escrita foi possível preservar as tradições pagãs:

Por um lado a mudança de religião provocou, em certa medida, mudanças em valores sociais e, consequentemente, também estéticos, mas, por outro lado, a igreja trouxe consigo o alfabeto latino (junto com a cultura letrada latina), o que permitiu a constituição de uma tradição literária escrita na terra recém-convertida. (MOOSBURGER, 2008, p. 2).



As sagas são divididas normalmente em categorias:



As sagas tradicionalmente são classificadas por referenciais temáticos (sagas legendárias: fornaldarsögur, sagas de reis: konungasögur; sagas de família: íslendingasögur; contemporâneas: sturlunga saga, sagas dos bispos: biskupasögur; sagas de cavalaria traduzidas: riddarasögur; sagas de cavalaria de origem nativa: lygisögur) (LANGER, 2009, p. 2-3).



Essas fontes tratam de um período anterior à sua produção, por esse motivo, requisita uma atenção maior dos historiadores, pois, é necessário observar duas épocas distintas, além disso, os autores são anônimos, o que dificulta a compreensão da sua escrita e análise da sua posição social, sendo assim, é possível compreender o âmbito social dentro da própria escrita e valer-se de outras áreas e fontes para averiguar a constituição das sagas. A Arqueologia, Filologia e outros campos são essenciais para possibilitar uma conexão entre a História e literatura das sagas. Ademais, existem dimensões entre a ficção e a realidade, dado que, existem elementos lendários nas sagas. A historiografia atual está pautada em compreender a proporção desses tipos de fontes no que se refere a sociedade:



 As tendências atuais não enfatizam mais a dicotomia história versus ficção nas sagas islandesas, ou então, a busca por parâmetros históricos tradicionais na constituição dos personagens, eventos, trama, e sim o estudo de valores sociais, os temas, as tendências, os padrões, as estruturas e as contradições nos textos, aproximando-se da História Social e Cultural, além da Antropologia Histórica e da História Comparada. (LANGER, 2009, p.6)



De acordo com o historiador Johnni Langer há três métodos para analisar as sagas islandesas: O método comparativo externo, o método comparativo interno e os estudos realizados sobre a oralidade.

O “método comparativo externo” consiste em procurar vínculos exteriores, explicando variações sem necessariamente ser generalista, mas, entendendo que há diferenças entre as épocas, regiões e etc.

Os limites deste tipo de abordagem, a comparação externa, seriam a de que as características comuns (paralelos, padrões comuns, similaridades estruturais) podem não ser resultados de empréstimos (difusão, contato) ou continuidade cultural, mas sim porque são comuns a ambas as culturas abordadas e de forma independente. De qualquer forma, as possibilidades analíticas desta abordagem são muito interessantes, principalmente se forem conjugadas com metodologias apropriadas, como as da História Comparada. (LANGER, 2009, p.7-8)



O “método comparativo interno” baseia-se na comparação das sagas islandesas com outras evidências. As evidencias materiais colhidas pela a Arqueologia são importantes parâmetros para explorar as diferenças entre as narrativas, ou seja, se tratando de obras da Era Viking escritas no mundo feudal cristianizado.  



Uma das mais promissoras tendências dos estudos escandinavísticos vem sendo a aplicação de conceitos e metodologias antropológicas, tanto para o estudo de fontes literárias e históricas quanto para a interpretação de vestígios arqueológicos e de cultura material. (LANGER, 2009, p.-8)



Os estudos realizados sobre a “oralidade” embasam-se nas origens da literatura escandinava:



As investigações tradicionais criaram duas grandes vertentes teóricas: a da “prosa livre”, que enfatizava o papel primordial da narrativa oral na criação das sagas, e a “prosa livro”, que privilegiava a importância do escritor individual. Esta segunda vertente não excluía totalmente a oralidade, mas ela era usada somente em certas partes da saga para especificidades literárias, sempre evidenciando a autoridade criativa do indivíduo. (LANGER, 2009, p.-9)



A saga dos Groelandeses

A Saga dos Groenlandeses (Gæenlendinga saga) é uma Íslendingasögur[4], ou seja, tem a narrativa formal, objetiva e descritiva. Juntamente com a Saga de Eiríkr Vermelho (Eiríks saga rauða) é uma das sagas mais traduzidas do mundo por serem componentes das Sagas de Vínland (Vinland Sagas). Essas sagas relatam a chegada dos Vikings no continente americano, além das descrições presentes nas duas sagas, há achados arqueológicos sobre esse fundo histórico, portanto, existem evidências persuasivas sobre a chegada dos nórdicos à América:



O dinamarquês Carl Christian Rafn, foi o primeiro acadêmico a defender a teoria de que os escandinavos estiveram na América do Norte, muitos séculos antes de Colombo. Para isso, o intelectual utilizou dois pressupostos básicos. O primeiro foram evidências arqueológicas de assentamentos nórdicos medievais descobertos na Groelândia, incluindo autênticas inscrições rúnicas. Em segundo, duas sagas islandesas, compostas na Idade Média Central, que relatavam a viagem dos islandeses durante a Era Viking, que empreenderam viagens da Islândia à Groelândia, e desta a uma terra muito promissora e rica, repleta de peixes, uvas e pastagens mais a Oeste, denominada de Vínland (terra do vinho). Se o primeiro caso era respaldado pela recente ciência da arqueologia, as sagas eram um material pouco aceito entre os historiadores. Não se sabia no período o quanto elas eram realmente fidedignas ou se apenas produtos da imaginação, entretanto, para o intelectual dinamarquês, elas eram a prova documental da visita de seus antepassados à América. (LANGER, 2012, p.4-5)



A Saga dos Groenlandeses é fruto de uma tradição oral e foi escrita no início do século XIII, narra fatos entre os séculos IX e início do X, relata a descoberta da Terra Verde[5] (atual Groelândia) pelos noruegueses e enfatiza o personagem Eric, o Vermelho.

De acordo com a saga, o primeiro europeu que havia visto a faixa litorânea da Groenlândia se chamava Gunnbiorn Ulfsson, desse modo, Eric preparou sua embarcação e dirigiu-se para o Oeste com o intuito de habitar a ilha. O pai de Eric, Thorvald, era um assassino na Noruega e por essa razão Eric e sua família foram banidos da Islândia, procurando um novo lugar para morarem.



No verão que seguiu ele foi para a Islândia e chegou em seu navio a Breiðaförðr. Chamou aquela terra que havia encontrado de Groenlândia, porque disse que as pessoas desejariam muito ir até lá se a terra fosse bem denominada. (Gæenlendinga saga) (ANÔNIMO, 2007, p. 58).



A colonização da Groenlândia iniciou-se 15 anos antes da Islândia ser cristianizada, sendo assim os povos que chegaram na ilha eram pagãos. Após a Islândia adotar o cristianismo oficialmente no ano 1000, a Groenlândia passa a ser convertida por Leifr, de acordo com a Saga de Eiríkr Vermelho:



Leifr encontrou pessoas num naufrágio e levou-as para casa consigo, e deu-lhes abrigo para o inverno. Ele demonstrou com isso a máxima grandeza e bondade. Ele levou o cristianismo à terra. Desde então passou a ser chamado de Leifr, o Afortunado. (Eiríks saga rauða) (ANÔNIMO, 2007, p. 100).



A Saga dos Groenlandeses e a Saga de Eiríkr Vermelho nos aponta que haviam poucas pessoas povoando a região da ilha nos seus primeiros 15 anos de assentamento Viking. Ao longo das narrativas é possível imaginar a figura do Viking herói associado a bravura e a aventura. É possível afirmar que os Vikings descobriram a América e até mesmo colonizaram algumas áreas do Novo Mundo, em conformidade com as Sagas de Vínland e inclusive achados arqueológicos:

Em meados dos anos 1950 iniciaram-se as escavações arqueológicas na região de L´Anse-aux-Meadows, ilha da Terra Nova, no Canadá, pelo arqueólogo norueguês Helge Ingstad. Surgiram as primeiras provas científicas e sem equívoco da presença européia antes de Colombo, como objetos de bronze, vestígios de fundição, porto e casas, datados do final da Era Viking (cerca do ano mil d.C.) (LANGER, 2012, p.13)




Ao analisar a imagem dos Vikings na atualidade, de uma forma trivial, é possível afirmar que ainda são vistos como bárbaros. Desconstruir esse estereótipo não é somente adquirir uma nova concepção acerca do passado, mas também, compreender a sociedade contemporânea.

A própria compreensão de Período Viking como uma época de destruição considerada por alguns historiadores resultou com que a historiografia não estudasse profundamente esses povos devido à falta de conhecimento. Atualmente há novas pesquisas relacionadas a Escandinávia afim de reconstruir a história da Era Viking.

As Sagas Islandesas servem como fontes históricas (de caráter primário) para o historiador e possibilita uma série de informações e reflexões sobre a sociedade medieval nórdica da perspectiva da sua própria geração propiciando uma aproximação da história da sociedade nórdica.

A Saga dos Groenlandesas acompanhada da Saga de Eiríkr Vermelho descreve com excelência as incursões e chegada dos Vikings no Novo Mundo, sendo assim, são de suma importância para compreendermos a presença dos nórdicos na América e como foi o processo de cristianização desses povos depois do ano 1000.

Esta pesquisa teve como finalidade interpretar os comportamentos sociais de acordo com o seu momento histórico e compreender que a História é e foi produzida de acordo com uma ideologia empregada a favor de outros povos (Europa Ocidental).


NOTAS

[1] Para os escritores romanos, a compreensão de povos germânicos abrange muitos povos diferentes da Europa Medieval.
[2] É possível afirmar que durante a Idade Média o termo Viking é percebido de forma diferente, não absolutamente aliado a invasões.
[3] Língua germânica falada pelos habitantes da Escandinávia durante a Era Viking.
[4] É um tipo de saga de natureza semi-histórica.
[5] Groenland significa Terra Verde.


FONTES PRIMÁRIAS

ANÔNIMO. A Saga de Eiríkr Vermelho. In: As três sagas Islandesas. Tradução de Théo Moonsburger, Editora UFPR, 2007.
 ANÔNIMO. A Saga do Groenlandeses. In: As três sagas Islandesas. Tradução de Théo Moonsburger, Editora UFPR, 2007.



 CAMPBELL, James Graham. Coleção grandes civilizações do passado. Os Vikings. Folio, 2006.
 LANGER, Johnni. “Vikings, cultura e região: o mito arqueológico nórdicosdos Estados Unidos”. O Olho da História 18, 2012. pp. 1-16. 
 MOONSBURGER, Theo de Borba. Brennu-Njáls saga: Projeto Tradutório e Tradução para o Português; orientador, Walter Carlos Costa - Florianópolis, SC, 2014.
 MOOSBURGER, T. B. . Os varangos nas sagas islandesas. In: Fontes, saberes e tradições. I Semana de Estudos Antigos e Medievais do NEMED, 2008, Curitiba. Caderno de resumos, 2008.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Bode de Natal na Tradição Escandinava

Julbocken, John Bauer (1912)



O Bode de Natal na Tradição Folclórica Escandinava

Pablo Gomes de Miranda

Doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB

Membro do NEVE



            Em 2014, na ocasião do II Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos & I Ciclo de Pesquisas Medievais, o primeiro ocorrido na Universidade Federal da Paraíba – UFPB (o I Colóquio aconteceu na Universidade Fluminense – UFF), apresentei a comunicação “Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani” onde argumentei que a tradição de narrativas míticas onde encontramos conexões com os relatos da Caçada Selvagem na Escandinávia, ela que ocorre sempre em torno do Natal, pode estar associada a elementos de drama nos poemas éddicos e em alguns contos e sagas islandesas.

            Durante a apresentação foram exibidas fotografias do início do século XX de pessoas vestidas com peles de Bodes e cabeças articuladas a fim de imitar o animal durante uma procissão que aconteceria de granja em granja na Noruega (a tradição também foi muito forte na Dinamarca) onde o Bode dançaria e deveria ser bem cuidado pelos anfitriões ou correriam o risco de ter a casa bagunçada por aquele animal. Ainda mais, nas prospecções feitas na Noruega e Suécia, encontramos uma divisão muito clara entre as representações dos Bodes, marcados pela atuação através da figura mascarada, e as representações das Cabras, enquanto máscaras articuladas erguidas sobre um mastro. Ambos deveriam ser recebidos pelas comunidades, que alimentariam o animal e lhe satisfaria. Quanto a rápida menção feita no evento, assim escrevi:

            “O uso de elementos caprinos na Þorleifs þáttur jarlskálds em muito nos lembra as máscaras e disfarces utilizadas nos festejos de Natal comuns a diversas localidades da Escandinávia (entre as variantes das vestimentas estão Julebukk, Julbock, Julget etc) e com registros muito recentes” (MIRANDA, 2014, p. 21).

            Acontece que essa comunicação representou o início de minhas pesquisas para a tese a qual me dedico no momento, de maneira que há uma pesquisa em andamento e o que escrevemos aqui é apenas um apanhado geral e elementos curiosos sobre o tema. Antes de ir adiante, preciso fazer duas observações. Primeiro, o número de costumes relativos ao Natal na Escandinávia é muito grande para abordamos em um post como esse, o folclore é dinâmico, adota novos significados, absorve elementos de diversos contatos com outras culturas e vai se modificando. Muitos folcloristas tentaram pesquisar possíveis origens britânicas ou continentais desses costumes e, apesar da semelhança com alguns elementos folclóricos, como o galês Mari Lwyd (que foi na verdade registrado pela primeira vez somente no século XIX), tais comparações são puramente teoréticas.

            Segundo, apesar de ser quase irresistível traçar paralelos com passagens de fontes bem anteriores ao mundo contemporâneo, irei me abster de fazê-lo, atividade planejada para um artigo cientifico posterior. Estaremos deixando de lado figuras mais conhecidas como a Grýla, popular nas ilhas do Atlântico Norte, e as suas raízes dramáticas presentes em danças como Vikivaki, Kerlingaleikur etc, que revelam uma miríade de personagens como Haa-þóra, Gunnhildur gríðarsterki, Þórhildur, entre outras menções do folclore escandinavos ilhéu em favor de um mosaico de tradições da Escandinávia continental.

            Dessa maneira, podemos localizar as performances de visitas do período natalino entre os escandinavos continentais nas seguintes atividades: O festival de Lucia na Suécia e Noruega, entre os dias doze e treze de dezembro; o Staffansreid, também encontrado na Finlândia entre os dias vinte e cinco e vinte e seis de dezembro; Stjärnspel e Trettondagsspel, no fim de dezembro e início de janeiro respectivamente; e o “bota fora” do Yule por São Canuto, entre sete e treze de janeiro, além do nosso Bode de Natal Julebukk ou Julegeit logo após o natal.

            Como lembra Terry Gunnell (GUNNELL, 1995, p. 95) Quatro dessas manifestações possuem uma carga cristã muito aparente (em sua superfície), com associações a Santa Lúcia (ou Santa Luzia) e São Estefano (Staffan, Stephanus), com o martírio de São Canuto e na encenação da visita dos Três Reis Magos em Stjärnspel e em Trettondagsspel, onde carregam consigo uma estrela. É facilmente apontado, nesses festejos, a influência da cultura medieval continental sobre a Escandinávia sob uma rasa suposição de que costumes cristãos chegaram até as áreas mais urbanizadas da Europa setentrional se opondo, ou, até mesmo, se apropriando de antigas comemorações pagãs dos rincões rurais (uma visão não dificilmente romântica), mas quando se aventura a investigar com um pouco mais de profundidade, depara-se facilmente com algumas curiosidades, a exemplo do festival de Lucia (também Lussi e Lusse) e a imagem da garotinha com uma coroa de velas cantando “Santa Lúcia”!



Figura 1: Isolda Langer com coroa de velas (João Pessoa, 2013), arquivo pessoal da professora Luciana de Campos.

            Entretanto o uso contínuo do nome “Lusse Longa Noite” (Lusse Långnatt) sugere que o festejo esteja associado com o solstício de inverno, fixado no calendário juliano como o dia treze de dezembro por volta do século XIV na Escandinávia. Inclusive a tradição de Lucia na Noruega ocidental (e em alguns lugares da Suécia), como continua Terry Gunnel (1995, pp. 98-99), raramente é apresentada na forma da jovem donzela em branco, mas como uma Troll que visita as granjas na noite de treze de dezembro, acompanhada de um grupo de espíritos malignos (Lussiferd). A velha Troll na Gotlândia Ocidental, Värend e Dalarna, por exemplo, é descrita como coberta por palha, peles de cabra e capa vermelha, com uma aparência que lembra muito o nosso Bode de Natal, mas também o Halm-Staffan do festival de São Estefano.

            É fácil se perder na discussão. Mas o que quero fazer o leitor entender, é que as diferentes tradições folclóricas de festejo natalino na Escandinávia continental possuem camadas complexas de interações culturais muito além de uma oposição entre “tradições cristãs” e “tradições pagãs”. Vamos voltar aos nossos Bodes e Cabras. Quando falamos em Julebukk, estamos nos referindo a uma abundância de representações que podem vir na forma da atuação em disfarce no natal (ligados tanto a máscara quanto ao espírito do animal), mas também a certas figuras de palha feitas à mão, talvez as representações mais famosas hoje.

            O registro mais antigo de menção direta ao Bode de Natal é de um raageit, uma cabeça de Bode em um mastro, na Noruega em 1646, onde o Julebukk é descrito como uma pessoa disfarçada com um cobertor. No século posterior, em 1781, começam a aparecer registros de Bodes e Cabras de Natal se casando e assustando crianças. Um registro de 1750 fala que alguém disfarçado de Bode chegou a quase matar uma mulher de susto.

            O Bode poderia ser interpretado e apresentado de diversas maneiras: 1) coberto com peles e em quatro patas; 2) curvado com o apoio de uma bengala e a cabeça articulada; 3) alguém usando apenas uma máscara, que poderia ser articulada e com dentes de ferro, a fim de fazer barulho quando as peças batessem uma na outra; 4) em pares, o Bode e a Cabra de Natal (Julebukk e Julegeit); etc.

            Outros animais também assumiram, regionalmente, o papel do Bode, ainda que, segundo a prospecção de Christine Eike (2007, p. 72-73) também se chamavam Julebukk: a) pássaros em Troms; b) ursos em Setesdal e em Røldal, que também eram chamados de Drykkjebassan ou Fydlebasser (Ursos Bebedores e Ursos Bêbados); c) Porcos em Oppland; d) Cavalo, em um único registro de uma máscara articulada com mandíbulas que faziam barulho, também em Oppland. Apesar do costume estar sendo retomado com certo vigor hoje, na segunda metade do século XX, o termo Julebukk começou a ser usado de forma geral para encontro de pessoas mascaradas, geralmente festas e bailes. A fabricação manual de máscaras decaiu em razão do surgimento das máscaras de plástico manufaturadas, e a figura do Bode foi sendo cada vez mais trocada pela de Papai Noel.

            Seja como for, como despedida deixamos alguns testemunhos da Suécia do início do século XX, recolhidos em arquivo por Eva Knuts, sobre a atuação do Bode de Natal durante o Natal, sinalizo aqui três situações diferentes a fim de melhor ilustrar a diversidade de situações e maneiras em que o personagem interagia com as pessoas. No primeiro caso o Bode atua no mesmo papel do Papai Noel (contrariando a norma, pois o Bode sempre deve ser agradado com comida ou dinheiro), entregando presentes a uma família rica, sendo o Bode algum serviçal da casa. No segundo caso, um grupo de garotos se juntam para conseguir dinheiro, e a indumentária do Bode é descrita em minúcias. No terceiro caso, o bode anima uma festa entre amigos.  

            “O Julbock nunca veio à minha vizinhança, ao menos não como algo de casa em casa. Mas nas famílias mais abastadas, e especialmente na alta sociedade, não era difícil para um dos homens ou um dos servos se disfarçar como um Bode. Se os chifres do Bode não estivessem disponíveis, eram usados grandes chifres de carneiro no lugar, e as vezes a pele desse animal também. Como regra, havia uma garota ou uma esposa habilidosa que ficava responsável pela roupa. Vestido assim e de quatro, o Bode ia de membro em membro da família, carregado de presentes de Natal, de modo que eles poderiam facilmente se soltar quando sacudidos. Após um monte de barulho e confusão, de pancadas na porta, o Bode vinha até o salão. Era uma boa festa e do tipo que era aproveitada pelos mais jovens e pelos mais velhos”

            “O Natal era o período do Julbocken como nós chamamos. Um grupo de jovens iam de casa em casa, um deles disfarçado de Bode. Curvado ao meio e com uma bengala para lhe ajudar, algum tipo de capa ou coberta deveria ser jogada sobre as suas costas. O disfarce deveria ser finalizado com a cabeça estufada de um Bode com chifres e uma barba cobrindo uma bolsa debaixo do queixo. A pessoa disfarçada andaria por aí com sua bengala e puxaria uma corda para fazer a boca do Bode abrir. Um lenço feito para parecer uma língua seria então puxada para fora e o Bode berraria: - Baaaa, dinheiro na minha barba! E todo o grupo sairia da festa com o dinheiro coletado”.

             “Essas festas acabam sendo muito divertidas. Quando estávamos no auge da dança, alguém aparecia todo vestido e bancava o palhaço. Normalmente alguém aparecia vestido como Julbock, coberto com a pele de Bode e chifres na cabeça. O Bode podia vir também com um pequeno sino amarrado entre as pernas para tornar a coisa mais engraçada e fazer as garotas corarem. O Bode então percorria a sala, empurrando e atropelando as pessoas que encontrava. As pessoas poderiam ainda se disfarçar com trapos e escurecer a face com fuligem” (KNUTS, 2007, pp. 129 – 132).



Figura 2: Julegeit exposto no Fredrikstad Museums. Retirado do site http://arkiv.ostfoldmuseene.no/stikkord/fredrikstad-museum/ visitado em 23 de dezembro de 2017



Figura 3: Foto retrato de 1917 de Julebukk. Retirado do site http://mylittlenorway.com/wp-content/uploads/2008/12/go-julebukk-1917.png visitado em 23 de dezembro de 2017.



Ele não foi antes que ele tivesse alguns dos deliciosos pratos de natal como porco, salsichas, queijos ou bolos, nozes e maçãs”.

Figura 4: Cartão desenhado por Benjamin Dahlerup sob instruções de M. Kramer Petersen, século XX. Retirado do site http://www.kb.dk/da/nb/fag/dafos/Dagligliv.dk/Temaer/Top_eller_bund/Indsigt/Dokumenter/Helte_for_og_nu/index visitado em 23 de dezembro de 2017.



 Figura 5: Reconstituição de um Bode de Natal. Retirado do Blog http://blog.dengamleby.dk/julehistorier/tag/rumlepotte/, visitado em 23 de dezembro de 2017.



Referências:

EIKE, Christine. Masks and Mumming Traditions in Norway: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 47-106.

GUNNELL, Terry. The Origins of Drama in Scandinavia. Cambridge: D. S. Brewer, 1995.

KNUTS, Eva. Masks and Mumming Traditions in Sweden: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 107-188.

MIRANDA, Pablo Gomes de. Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani. In: Notícias Asgardianas (Nova Série), n. 8, João Pessoa: PB/NEVE, 2014, pp. 19-26.





domingo, 24 de dezembro de 2017

Inscrições abertas para VI CEVE/I Encontro Ibero-americano de Estudos Nórdicos


Estão abertas as inscrições para o VI colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos e I Encontro Ibero-americano de Estudos Nórdicos, a ser realizado na UFPB de 2 a 5 de outubro de 2018. Estão previstas conferências internacionais, mesas redondas, minicursos, oficinas e sessões de comunicações. O encerramento contará com atividades de Living History, incluindo reconstituições de lutas nórdicas medievais.
As inscrições para ouvintes e propostas de comunicações são totalmente gratuitas:

https://www.even3.com.br/Viking