O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Novo artigo sobre Mitologia Nórdica

 
A revista Rever (PUC-SP) acaba de publicar um novo artigo sobre o mundo nórdico, desta vez trazendo perspectivas teóricas e metodológicas para os pesquisadores da área: Teorias e métodos para o estudo da Mitologia Nórdica, escrito por Johnni Langer (Membro do NEVE).
 
O estudo pode ser acessado pelo site Academia.
 
Resumo: O presente artigo realiza uma sistematização bibliográfica e analítica sobre algumas teorias do mito e suas aplicações conceituais para a Mitologia Nórdica. Também realizamos algumas discussões metodológicas de análise, exemplificando com alguns temas (a donzela do escudo, Teogonia germânica e nórdica, a árvore cósmica euroasiática) e excertos de fontes primárias (De Origine et situ Germanorum, Vǫluspá, Grímnismál, Gylfaginning, Örvar-Oddr saga e a tapeçaria de Överhogdal, entre outras). Os pressupostos teóricos e metodológicos predominantes são o Estruturalismo, a Mitologia Comparada e os estudos abordando a cultura visual dos mitos. Também desenvolvemos uma pequena sistematização de algumas das críticas apontadas aos referenciais da fenomenologia aplicada à interpretação dos mitos, especialmente as que foram desenvolvidas pelos escandinavistas.
 
 
 
 
 
 
 

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domingo, 13 de maio de 2018

Cronologia histórica da série Vikings



Cronologia histórica de acontecimentos e personagens retratados na série Vikings




Leandro Vilar
Graduado e Mestre em História pela UFPB
Doutorando em ciências das Religiões pela UFPB
Membro do NEVE


A série Vikings criada por Michael Hirst e desenvolvida pelo History Channel, foi inicialmente lançada em 2013. Atualmente em sua quinta temporada, a série continua a cativar o público, apresentando os conflitos familiares entre os filhos de Ragnar Lothbrok. Embora originalmente tenha focado a ascensão e queda de Ragnar, baseando-se em suas lendas escritas entre os séculos XII e XIII, Hirst optou por conceder mais veracidade a esse lendário rei viking, acrescentando em sua jornada elementos históricos para isso, especificamente referentes a acontecimentos ocorridos na Inglaterra França e Noruega, embora a partir da quinta temporada vimos desdobramentos relacionados a outros territórios como a Península Ibérica, a ilha da Sicília e a Islândia.

Apesar desse interesse em mesclar história e lenda, a série não pode ser considerada uma produção histórica, mas uma obra de ficção com elementos históricos. Alguns acontecimentos retratados ao longo do seriado não ocorreram em datas próximas. Tão pouco os monarcas reais que se tornaram personagens na série, foram necessariamente contemporâneos ou conheciam-se. No caso é válido lembrar que Michael Hirst já possui experiência em trabalhar com temáticas históricas, já que foi o autor de Os Tudors (2007-2010), famosa série sobre Henrique VIII.

Nesse estudo procuramos evidenciar os principais acontecimentos históricos relatados na série Vikings, apontando alguns aspectos básicos sobre batalhas, monarcas, reinados e outros eventos. Sendo que um dos motivos para a escrita desse texto partiu do problema de que nas redes sociais, blogs, podcasts, sites de entretenimento, etc. estavam e estão difundindo notícias que diziam/dizem que os acontecimentos históricos vistos na série eram totalmente verídicos, que Ragnar, Lagertha, Björn, Ivar, Floki, etc. foram pessoas reais, pois são citados em livros antigos. Que Ragnar realmente liderou ataques na Inglaterra e França.

Logo, no intuito de esclarecer essas dúvidas e incertezas aprovadas como certezas, esse texto foi redigido. Para isso optamos em dividi-lo em cinco sessões. A primeira um breve comentário sobre o protagonista da trama, na segunda parte, veremos os acontecimentos ocorridos no contexto escandinavo, depois passando para o inglês, o francês e depois o ibérico mediterrânico. Por fim, redigimos um quadro cronológico com os principais acontecimentos mostrados ou citados no seriado.


A lenda de Ragnar Lothbrok

Ainda não é incomum se deparar com pessoas dizendo que Ragnar Lothbrok foi um homem real, um notório guerreiro e rei que realizou grandes feitos. Embora Ragnar seja mencionado na História Danesa (Gesta Danorum) de Saxo Grammaticus, na Saga de Ragnar Lothbrok (Ragnars saga Loðbrókar), na Saga dos Filhos de Ragnar (Ragnarsson þáttr), e no poema Krakumal, essas produções datadas entre os séculos XII e XIII, são as principais fontes sobre a vida e feitos de Ragnar Lothbrok. Porém, excetuando-se a História Danesa com seu teor semilendário, as demais obras são consideradas histórias ficcionais.

Não obstante, observa-se divergências em vários aspectos nessas narrativas quanto a vida de Ragnar. Com exceção da sua morte, pois as quatro fontes costumam confluir no mesmo aspecto, ao dizer que ele morreu num poço de cobras na Inglaterra. Todavia, a História Danesa conta que Ragnar era neto do rei Sigurd Hring da Noruega, tendo sucedido o avô e governado a Noruega e a Suécia. Nessa versão da sua história, Ragnar casou-se primeiramente com Lagertha, com quem teve três filhos. Depois ele se divorciou dela e foi casar com Thora Borgarhjört, com quem teve dois filhos. No caso, para conseguir a mão em casamento de Thora, Ragnar teve que matar uma serpente gigante. Na ocasião ele usou calças peludas (lothbrok), para se proteger da picada do animal. Por tal característica ganhou o epíteto de Ragnar Calças Peludas.

Apesar que no seriado Lothbrok seja tratado não como um epíteto, mas como um sobrenome, ocorrendo em algumas passagens ouvirmos Rollo Lotbrok, Björn Lothbrok ou Ivar Lothrbok. Neste caso, os sobrenomes vikings eram patronímicos, onde os filhos adotavam o prenome do pai. Por exemplo, o correto seria Björn Ragnarson ou Ivar Ragnarson.

Retomando as fontes literárias, a Saga de Ragnar diz que ele era filho de Sigurd Hring, rei da Noruega, tendo casado com Thora e Aslaug, possuindo dois filhos com a primeira e quatro com a segunda. Além de ter tido filhos adotivos e bastardos. Por essa saga, Ragnar foi rei da Noruega e Dinamarca. Já a Saga dos Filhos de Ragnar repete os dados anteriores, mas diz que ele foi rei apenas da Noruega.



Imagem 1: O encontro de Ragnar e Aslaug. August Malmström, 1880. Fonte aqui.


Na série a história de Ragnar também sofreu alterações. Ele é descrito como sendo de origem camponesa, sendo um fazendeiro. Casou-se com Lagertha com quem teve dois filhos, Gisla e Björn, e com Aslaug teve quatro filhos, Ubba, Ivar, Hvisterk e Sigurd. Tornou-se rei da Noruega. A personagem de Thora e seus filhos são excluídos da série. Inclusive o seriado não explica necessariamente o epíteto Lothbrok, além de acrescentar Rollo como irmão de Ragnar.


Acontecimentos históricos na Escandinávia

Embora seja dito que Ragnar tornou-se rei da Noruega, na primeira temporada não fica claro que ele e a família vivessem na Noruega. Somente depois é dito que a fictícia cidade de Kattegat é norueguesa, já que historicamente Categate trata-se do nome do estreito marítimo que separa a Dinamarca da Suécia, sendo uma localização geográfica, não uma vila ou cidade como mostrado no seriado.
De qualquer forma, antes de Ragnar torna-se rei é dito que o então monarca governante era Horik. No caso, na Noruega não se conhece nenhum rei com esse nome, porém, temos um monarca chamado Horik I (?-854) que governou a Dinamarca entre os anos de 827 a 854, embora essa datação possa ser imprecisa. Apesar que no seriado não apresente o fato do rei Horik I ser governante da Dinamarca, fica subentendido que independente disso, ele também teria domínio sobre a Noruega. Historicamente sabe-se que houve reis da Era Viking que governaram mais de um país, entretanto, não se tem fontes que atestem que Horik tenha governado a Noruega também.
Além de Horik I houve outro rei com o mesmo nome, tratando-se de Horik II o qual reinou na Dinamarca entre os anos de 854 a 867. Durante seu reinado houve a grande invasão dinamarquesa à Inglaterra. Todavia, no seriado o rei Horik representado é o primeiro, pois ele esteve supostamente ligado a invasão de Paris, algo retratado no seriado.
Todavia, com a morte de Horik na série, Ragnar se tornou o novo rei da Noruega. Porém, com sua morte na quarta temporada, um novo pretendente ao trono surge, trata-se de Haroldo Cabelo Belo (c. 850-943). Embora o trono tenha sido sucedido pela rainha Aslaug, ainda assim, Haroldo apresenta intenções de tomá-lo. No caso deve ser salientado que a Noruega na ocasião ainda não era unificada, mas era dividida em pequenos reinos, sendo que no contexto do seriado só conhecemos dois deles: o reino de Ragnar e o reino de Haroldo.




Imagem 2: O rei Haroldo Cabelo Belo e seu irmão Halfdan na série Viking. Fonte aqui.

No entanto, em termos históricos, Haroldo Cabelo Belo somente ascendeu ao trono na década de 860, sendo na época uma criança ainda. No ano de 872, por volta de seus vinte e poucos anos, ele foi coroado rei da Noruega. No seriado Haroldo é um homem bem mais velho e que se encontra nesse processo de se tornar o rei de uma Noruega unificada. No caso, a trama da série alterou as datas desse governo, vindo antecipar a existência do reinado de Haroldo Cabelo Belo em vinte anos.
Um último ponto a ser abordado no contexto escandinavo diz respeito a descoberta e colonização da Islândia. O Landnámabok (“Livro da Colonização”) consiste num manuscrito islandês do século XII que conta a história da colonização da Islândia, da sua descoberta até o século XI. Embora seja uma fonte importante sobre a história islandesa, a obra deve ser lida com cautela, além de apresentar inconsistências e imprecisões históricas. No caso, o livro diz que os descobridores da Islândia teriam sido quatro homens chamados Naddod, Gardar, Floki e Bjornolf. Todavia, não se tem certeza se realmente eles existiram e quando realizaram suas supostas descobertas.





Imagem 3: Mapa retratando as supostas rotas marítimas realizadas por Naddod, Gardar e Floki, os quais são creditados como descobridores da Islândia. Fonte aqui.


 Floki Vilgerđason, também conhecido pelo apelido de Hrafna-Floki, que significa Floki, o Corvo, pois segunda a história ele teria levado três corvos consigo em sua viagem para visitar a ilha descoberta por Gardar, a qual Floki rebatizou de Ísland (Terra do Gelo). Por sua vez, Vilgerđason inspirou o personagem Floki da série Vikings, apesar que esse personagem também encarne em suas características, comportamentos associados ao gigante Loki, especialmente quanto a sagacidade, criatividade, lábia, cinismo, etc. Além do fato que algumas cenas que contam com a presença de Floki, foram baseadas em momentos vivenciados por Loki, como contado nos mitos. Logo, não tem como se dizer que o Floki do seriado seja propriamente uma adaptação de Vilgerđason, mas alguém que tomou o nome emprestado e a ideia de “descobridor” da Islândia.
No seriado o Floki é um construtor de navios e guerreiro, sendo amigo de longa data de Ragnar Lothbrok. Apesar que a partir da terceira temporada Floki começa a ter visões que ele diz serem mensagens ou presságios dos deuses, e assim ganha uma motivação espiritualista. Motivação essa que vai crescendo nas temporadas seguintes. Floki ao deixar a Inglaterra, diz para Ivar Ragnarson que recebeu um chamado divino, que o levaria a buscar uma nova terra. Assim, ele chega a Islândia, cuja ilha Floki acredita ser uma terra onde os deuses habitam. Posteriormente na quinta temporada, Floki convence algumas famílias a acompanha-lo até essa ilha que ele descobriu, e ali fundarem uma colônia. A questão é que na série isso é feito por um viés religioso. Floki se torna uma espécie de guru espiritual e tem o sonho de criar na Islândia um retiro espiritual, onde as pessoas possam continuar a seguir de forma conservadora as antigas crenças.
Quanto a presença escandinava na Islândia essa ocorreu ainda em data imprecisa, entre as décadas de 860 e 870, sendo que no ano de 874, consta que o chefe Ingólfur Arnason já tivesse se estabelecido na ilha com sua família, tendo sido um dos primeiros colonos permanentes. Seguindo Arnason, outras famílias de colonos noruegueses se mudaram para a ilha. Os motivos para essa mudança não são conclusivos. Se no seriado a motivação para a colonização da Islândia é de ordem religiosa e espiritual, historicamente parece ter sido relacionada a problemas políticos e demográficos. Algumas teorias sugerem que os colonos noruegueses descontentes com o reinado de Haroldo Cabelo Belo, migraram a Islândia. Outra teoria fala que o motivo teria sido excesso populacional ou escassez de alimentos.

Acontecimentos históricos na Inglaterra

O primeiro grande acontecimento ocorrido em solo inglês retratado na série Vikings, trata-se do ataque ao mosteiro de Lindisfarne, em uma pequena ilha na costa do então Reino da Nórtumbria. Atualmente costa nordeste da Inglaterra. Tal acontecimento realmente ocorreu, tendo sido datado em 8 de junho de 793, como registrado na Crônica Anglo-saxã, um importante manuscrito que narra acontecimentos significativos da história inglesa entre os séculos VIII e XII.
No seriado o ataque ao mosteiro ocorre logo no começo da primeira temporada, contando com a participação de Ragnar na expedição. A partir do êxito desse, Ragnar convence seu jarl (governante) a enviar novas expedições a Inglaterra, atacando especialmente a Nórtumbria. No seriado é dito que o governante da Nórtumbria na ocasião era o rei Aella II. Só que aqui temos um problema cronológico. Historicamente Aella II reinou entre 863 e 867, mais de setenta anos após a invasão viking do mosteiro de Lindisfarne. Mas ele não foi o único que saiu de seu período histórico, os outros monarcas saxões apresentados na série também estão fora de contexto, como Egberto de Wessex, o qual na série é inicialmente inimigo, mas depois aliado de Ragnar, apesar que sua aliança não era pautada na confiança, mas em interesses.


 
Imagem 5: Miniatura retratando o rei Egberto de Wessex. Imagem feita para o livro Genealogical Chronicle of the English Kings (XIII). Fonte aqui.
Ele historicamente reinou de 802 a 825, governando Wessex e Kent. Na cronologia da série, Egberto de fato estaria mais próximo do evento de Lindisfarne, porém, na série, seu filho Etevulfo é casado com Judite, a filha de Aella II, o que historicamente nunca ocorreu. Primeiro, pelo fato que Judite era de origem flamenga, não saxã como retratado no seriado, e o casamento somente ocorreu em 856, como parte de um acordo entre Wessex e França, e não como acordo entre Wessex e Nórtumbria como mostrado na série. Além dessa alteração de nacionalidade quanto a rainha Judite, outra mudança compromete o governo de Etevulfo, o qual reinou de 839 a 858, mas na série ele é contemporâneo do Grande Exército Pagão, que invade a Inglaterra em 866. Historicamente ele já havia falecido na ocasião da invasão. Além disso, o rei Etevulfo teve cinco filhos, os quais governaram brevemente depois de sua morte. Mas no seriado o número de filhos foi reduzido para dois, sendo estes Etereldo I e Alfredo, o Grande.

Pelo fato da série Vikings basear-se na lenda de Ragnar Lothbrok, obviamente justificaram a grande invasão viking da Inglaterra segundo a vingança de seus filhos, embora que historicamente não se conheça quais motivos e quem foram os líderes e idealizadores dessa campanha que resultou em doze anos de conflitos seguidos, confluindo na formação do Danelaw (nome dado ao território inglês ocupado pelos vikings).

Acontecimentos históricos ocorridos na França

Se no núcleo inglês da série vimos a alteração dos anos de reinados, vindo a pôr alguns monarcas que não viveram na mesma época, mas passaram a serem contemporâneos, no núcleo francês algo similar ocorreu. Em Vikings, a França, especificamente Paris, é foco da trama na terceira temporada e na primeira metade da quarta temporada, onde se dão as tentativas de tomar a capital franca.

Os ataques vikings a França parece ter se iniciado em 799, data que se refere ao relato mais antigo de uma expedição nórdica ao território franco. No que se refere a Paris, a história informa que apenas no século IX, a capital foi alvo de três ataques nórdicos. No caso do seriado a história dessas três campanhas de invasão e pilhagem foram reunidas para compor a trama da terceira e quarta temporada.

O primeiro ataque teria ocorrido em 845, sendo liderado por um chefe chamado Ragnar, que alguns tentam interpretar como sendo o herói Ragnar Lothbrok, mas isso carece de argumentos e fontes que sustentem tal hipótese. O segundo ataque ocorreu entre 856 e 857, supostamente liderado por Björn, Costas de Ferro. Por fim, o terceiro ataque se sucedeu em 885, contando com a liderança de Siegrfied e Gorm. Percebe-se por tais datas como os ataques ocorreram em épocas distintas, e no caso a distância do primeiro para o terceiro é de quarenta anos.

No caso da série, como dito, houve uma mescla desses acontecimentos. Ragnar, Björn e Siegrfied participam da mesma campanha, a qual ocorre durante o governo do rei Carlos, o Simples, que historicamente reinou de 898 a 922. Ou seja, o monarca não reinou durante nenhuma invasão a Paris, como retratado na série. Mas além desse fato, temos uma mudança bem significativa no seriado.
Enquanto o rei Carlos é representado como um monarca sem nenhum talento para guerra, algo bem diferente de seu avô Carlos Magno (742-814), que é mencionado na série algumas vezes, Carlos, o Simples depende do comando do Conde Odo para proteger Paris dos cercos vikings. Só que historicamente Odo não apenas foi um conde, mas foi rei da França de 888 a 898. E durante seu governo não houve novas tentativas de ataques a Paris. Só que no seriado Odo não apenas deixou de ser rei, mas acabou sendo morto por uma de suas amantes que decidiu se vingar dele. Por sua vez, sem ele para comandar as defesas de Paris, Ragnar conseguiu enganá-las e adentra a cidade, vindo a fazer uma proposta ao rei Carlos, que para evitar a pilhagem de sua capital, concede pagar o danegeld (tributo em ouro ou prata, cobrado para se evitar novos ataques) a Ragnar.
Contentado pela vitória, Ragnar se retira da França com seu exército, mas seu irmão Rollo decide permanecer e propor um acordo para o rei franco, o qual aceita com certo temor. Assim Rollo é empossado Conde da Normandia, depois foi batizado e se casou com a princesa Gisela. Em termos históricos tal acontecimento somente ocorreu no ano de 911, no chamado Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, no qual Carlos, o Simples cedeu um feudo a Rollo, perto de Ruão, que veio a tornasse o Condado da Normandia (911-1204), depois elevado a condição de ducado.


Imagem 8: Miniatura medieval retratando Rollo, Conde da Normandia. Datada do século XIII. Fonte aqui

 Acontecimentos históricos na Península Ibérica e no Mediterrâneo

Um último núcleo a ser tratado, sendo esse também recente, pois foi introduzido na quarta temporada, junto com o núcleo islandês, trata-se da visita dos vikings aos domínios muçulmanos no sul da atual Espanha, na ilha da Sicília e na Tunísia.
Historicamente o relato mais antigo da presença nórdica em território ibérico é datado do ano de 844, onde se registra ataques vikings ao norte do atual território espanhol. Nos anos seguintes ocorreram ataques ao longo da costa de Portugal e no sul da Espanha. No caso da série, os vikings chegam no sul, sendo liderados por Björn, que conta com a presença de um de seus irmãos, o tio Rollo, Floki, entre outros. A permanência no território mouro é breve. No episódio mostra-se a estranheza dos nórdicos frentes a um novo povo e uma nova religião. Após atacarem e pilharem a cidade, eles vão embora. Porém, na quinta temporada, Björn e Halfdan (irmão do rei Haroldo) retornam no intuito de explorar o mar Mediterrâneo, e assim, eles chegam a Sicília, na época ocupada pelos muçulmanos, os quais mantinham acordos com os bizantinos.
Na ilha Björn por sugestão de seu guia, apresenta-se como um mercador interessado em vender seus produtos e criar acordos comerciais. Descobrindo que o governador da Sicília não era o verdadeiro chefe, ele pede para conhecer quem realmente mandava naquelas terras, então lhe é dito que se tratava do emir Ziadete Alá I, mas esse morava na África. Então Björn e Halfdan acompanham a comitiva do governador até a residência de Ziadete, que estranhamente se encontra num acampamento no meio do deserto.


Historicamente Ziadete Alá I governou de 810 a 838, ou seja, ele morreu vários anos antes da primeira notícia de vikings chegando ao Estreito de Gibraltar, que consiste na entrada ocidental do Mediterrâneo. No caso de Björn, a suposta expedição que ele teria liderado por esse mar é datada entre os anos de 859 a 862. Mas esses não são os únicos problemas cronológicos apresentados nesse núcleo. Enquanto estavam na Sicília, o governador (que é um personagem fictício), diz que eles não eram os primeiros nórdicos que conhecia, pois havia visto outros em Constantinopla, capital do Império Bizantino.

De fato, os vikings chegaram a Constantinopla e permaneceram lá por mais de um século, atuando como comerciantes, mercenários e guardas reais. O primeiro relato da presença de nórdicos em Constantinopla é atribuído ao ano de 839. No entanto, o governador siciliano diz que conheceu os vikings na corte do imperador Miguel II, só que esse historicamente reinou de 820 a 829, vindo a falecer no exercício do governo, dez anos antes da chegada dos vikings a capital bizantina.

E se não bastasse essas imprecisões cronológicas, o governador siciliano e Ziadete Alá mencionam a respeito de uma guarda que o imperador Miguel II possuiria, a qual se trata da Guarda Varenga ou Varegue, mas que somente se formalizou em 988, durante o reinado de Basílio II. Pelo fato da série Vikings se passar no século IX, a menção a guarda nunca poderia ter ocorrido.

Por fim, um último informe a ser mencionado é que na história, Björn teria liderado a expedição ao Mediterrâneo antes da invasão a Inglaterra, só que no seriado eles inverteram a ordem dos acontecimentos. Björn participa primeiramente da invasão motivada pela vingança, e só depois viaja para o Mediterrâneo.

 Cronologia resumida

793: Ataque ao mosteiro de Lindisfarne, na Nortúmbria (norte da atual Inglaterra).

802-839: Reinado de Egberto de Wessex e Kent.

810-838: Reinado do emir Ziadete Alá I de Ifríquia (Tunísia e oeste da Argélia).

820-829: Reinado de Miguel II de Bizâncio.

827-854: Reinado de Horik I da Dinamarca.

839: Primeiros relatos de vikings em Constantinopla (atual Istambul).

839-858: Reinado de Etevulfo de Wessex.

845: Relato do primeiro cerco viking à Paris.

849: Nascimento de Alfredo, o Grande, futuro rei de Wessex.

844: Primeiras incursões vikings à Península Ibérica.

856: Judite de Flandres casa-se com Etevulfo de Wessex.

856-857: Suposto ataque à Paris liderado por Björn, Costas de Ferro.

859-862: Supostas viagens de Björn a Espanha e o Mediterrâneo.

865-866: Invasão do Grande Exército Pagão a Inglaterra.

867: Morte do rei Ælla II da Nortúmbria.

867: Ocupação de Jorvik (atual York) pelos vikings.

872-933: Reinado de Haroldo Cabelo Belo da Noruega.

860-870: Suposta data para a descoberta da Islândia.

874: O chefe Ingólfur Arnason e sua família viviam fixamente na Islândia.

885: Ataque à Paris promovido por Sigurd e Gorm.

898: Morte do rei Odo I da França Ocidental.

898-922: Reinado de Carlos III, o Simples da França Ocidental.

911: Tratado de Saint-Clair-sur-Epte entre Rollo e Carlos III.

911-927: Governo de Rollo como Conde da Normandia.

988: Formalização da Guarda Varegue pelo imperador Basílio II de Bizâncio.

Bibliografia 

Fontes primárias:

ANÔNIMO. The Anglo-saxon Chronicle. Translation Rev. James Ingram. London: Everyman Press Edition, 1912.

ANÔNIMO. The Book of Settlement (Landnámabók). Translated by Ari the Learned. Kendal: T. Wilson, 1898.

ANÔNIMO. Krakúmal. Disponível aqui.

ANÔNIMO. Ragnars saga Lodbrokar. Translated by Chris Van Dyke. Colorado: Cascadian Publishing, 2003.

ANÔNIMO. The Saga of Ragnar Lodrok and his Sons. Disponível aqui.
GRAMMATICUS, Saxo. The history of Danes, books I-IX. Edited by Hilda Ellis Davidson; translated by Peter Fisher. Woodbridge: D. S. Brewer, 1979.


Referências secundárias:

BRINK, Stefan (ed.). The Viking World. London/New York: Routledge, 2008.

GRAHAM-CAMPBELL, James (org.). Os vikings. Barcelona: Folio S.A, 2006.

HAYWOOD, John. Historical Atlas of Vikings. London: The Penguin Books, 1995.

KACANI, Ryan Hall. Ragnar Lothbrok and the semi-legendary history of Denmark. Thesis (Undergraduate program in History) - Faculty of the School of Arts and Sciences of Brandeis University, 2015.

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/mitologia/dicionario-de-historia-e-cultura-da-era-viking-46752571?id_link=13776&adtype=pla&gclid=Cj0KCQjwxN_XBRCFARIsAIufy1ZQ6JML60I8U1tBk6aW44t5ViMzVgTRzfpFuA1fvef36IEs_FqE0RoaAqO_EALw_wcB


PUCHALSKA, Joanna Kataryzna. Vikings Television Series: When History and Myth Intermingle. The Polish Journal of the Arts and Culture, v. 15, n. 3, 2015, p. 89-105.

SAN JOSÉ BELTRÁN, Laia. Análisis histórico de la serie Vikingos de History Channel. En: Los Vikingos en la Historia, 2. HUM-165: Patrimônio, Cultura y Ciências Medievales. Universidad de Granada, Granada, España, 2015.

SAWYER, Peter (ed.). The Oxford Illustrated History of the Vikings. New York: Oxford University Press, 1997.