O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


sábado, 7 de fevereiro de 2015

A COSMOLOGIA MEDIEVAL E A NAVEGAÇÃO NÓRDICA


                         Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)

O abandono de Vinland e a colonização nórdica no Atlântico Norte ainda são alguns dos grandes problemas científicos nos estudos medievais. Uma nova teoria – que, sem querer competir com a perspectiva geoclimática, tenta introduzir novos olhares na questão e apontar novos caminhos interpretativos, foi publicada no artigo From Vínland to Jerusalem in the Beatus Galaxy: the impact of maps on the european mentality in the 11th century (Current Swedish Archaeology 21, 2013). Escrita pelo arqueólogo Leif Gren, a pesquisa defende que uma mudança paradigmática na cosmologia europeia colaborou para o abandono da colonização/navegação nórdica para o Oeste.

Gren foi influenciado pelos novos estudos de cosmologia nórdica pré-cristã, que desde os anos 1990 vem incrementando tanto as investigações sobre mitologia, religiosidade quanto de cultura material e arqueologia. Baseado em autores como Anders Andrén, Margaret Clunie Ross e Catharina Raudvere, Gren defende que os antigos nórdicos possuíam uma concepção espacial/visão de mundo essencialmente horizontal (assim como os romanos). Mesmo exploradores já cristianizados (como Leif Eriksson) ainda eram inseridos neste paradigma – que pode ser sintetizado como sendo baseado em uma rede de localidades e aglomerações tanto para objetos distantes quanto próximos e principalmente, apresentando uma noção de periferia aberta. Este último ponto é atestado pelo autor em análises de explorações nas sagas islandesas – onde este paradigma é muito presente.

Após o século XI, penetra na Escandinávia uma nova concepção cosmológica e cartográfica, baseada na noção de mundo verticalizada, especialmente nos mapas T-O. A visão vertical é fundamentada em áreas e sua periferia é fechada – assim, a concepção de Vinland/ilhas atlânticas/continentes incógnitos é praticamente impossível para a nova mentalidade espacial e cartográfica, que entra em conflito também com a tradição oral (essencialmente horizontalizada). Para Gren, o novo paradigma já estaria presente nos escritos de Snorri e Adão de Bremen.

O estudo de Leif Gren muito mais do que apresentar uma resposta satisfatória para o abandono da colonização atlântica, apresenta um olhar inovador da relação cultural entre Escandinávia e mundo europeu cristão, inserido no novo impulso que a cosmologia vem tendo nos estudos nórdicos e em certa medida no medievalismo em geral, mas também em abordagens que tentam retirar da Scandia seu caráter tradicionalmente periférico (como na coletânea Scandinavia and Europe 800-1350: contact, conflict and co-existence, 2004).
 
Por se tratar de um artigo, algumas questões mais detalhadas ficaram de fora. Por exemplo, nem todos os pesquisadores (incluindo minha pessoa) são unânimes em caracterizar o modelo cosmológico nórdico pré-cristão como sendo somente horizontalizado – ao menos na mitologia, aqui seguindo os passos de Clunie Ross. Pensando como Eldar Heide, Andreas Nordberg e principalmente Jonas Wellendorf, acreditamos em uma cosmologia nórdica horizontal e vertical interdependentes e consecutivas ou ainda, de modo separado, dependendo da fonte. Como o mito e a religiosidade, a cosmologia pagã é muito dinâmica e variável. Mas concordamos totalmente com o autor, ao apresentar uma visão predominantemente horizontal para o referencial social: em termos de exploração, navegação e cotidiano o homem nórdico era semelhante ao homem da Antiguidade Tardia.


Talvez o conceito presente no artigo de Leif Gren que possa expressar todas as questões bibliográficas que apresentamos até aqui é a questão das conexões. Os medievalistas muitas vezes ficam presos em um recorte e temporalidade fechada, buscando o rigor ao extremo de suas fontes, mas esquecendo-se das múltiplas redes culturais que as sociedades criam com o tempo. Neste sentido, a Escandinávia é exemplar e oferece muitas possibilidades futuras de investigações.