O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


domingo, 9 de julho de 2017

Entrevista com Régis Boyer



Recentemente falecido, o escandinavista Régis Boyer recebeu diversas entrevistas durante a sua vida acadêmica. O NEVE republica uma de suas entrevistas para o NA.


ENTREVISTA COM RÉGIS BOYER
 
Entrevistado por Claudine Despax e Aurore Guilhamet durante o festival "Les Boreales" em Caen, França, 2008. Tradução de André de Oliveira para o boletim Notícias Asgardianas n. 4, 2013.



Qual é o elemento chave que fez o senhor mudar para o estudo dos Mundos Nórdicos?
Régis Boyer: Quando eu era estudante eu tinha duas formações, Filosofia e Letras Então com 27 anos eu tive que lutar na Guerra da Argélia. Com o meu retorno à França, eu decidi ir para o exterior. Eu decidi ensinar na Rússia, pois já estive na Polônia e lá é um país infeliz.

Lá na biblioteca de Lotz, eu descobri as sagas em alemão. A Saga de Erik, o vermelho. Eu adorei. Eu ainda não queria voltar para a França, então eu pedi para ir à Islândia. Eu permaneci lá por três anos.

Depois de um tempo, após passagens na Suécia e Dinamarca, eu voltei para a França. Eu tinha muitos filhos que já estavam ficando adultos. Então eu preferi voltar para casa para que eles tivessem uma educação correta.


Na França, o senhor então continuou a estudar os Mundos Nórdicos?
Regis Boyer: Eu fiz uma tese na Islândia sobre as sagas Sturlungar e os mitos vikings. Eu então sucedi Maurice Gravier nos embrionários Estudos Escandinavos. Isso era fascinante para mim: Todos esses idiomas, uma literatura inacreditável... Existia um incrível campo a descobrir.

Eu criei um instituto de língua escandinava, e eu comecei as traduções. Existiam pessoas extraordinárias para conhecer: eu lancei as coleções e filiais do meu instituto em toda a França.

 

Mas porque esse apego em particular a Escandinávia?
Regis Boyer: Eu não posso explicar esse interesse. Era um território novo. Existia tanto para criar. Era o meio ideal da divulgação do conhecimento. E eles são pessoas simpáticas. Eles recebem você, te ajudam. Eles não estão acostumados com o nosso interesse neles.

 

Qual é seu papel na disseminação desse tipo de conhecimento?
Regis Boyer: Meu trabalho de Escandinavista é bipolar. Eu devo simplificar meus conhecimentos e fazer um trabalho de desmistificação, pois muitos franceses possuem ideias fixas e falsas. Este trabalho começou há mais de meio século e ainda tem muito a ser feito.


Qual é o local da Islândia neste mundo escandinavo?
Regis Boyer: A Islândia já é, fisicamente, separada. Além disso, os islandeses não são escandinavos puros. Eles descenderam de uma mistura de escandinavos com celtas. Um melting-pot causa normalmente civilizações muito interessantes, como temos visto também na Córsega ou Sardenha.

Eles então desenvolveram uma cultura única, com uma rica literatura. Desde a Idade Média a insularidade e o isolamento tornaram a Islândia um verdadeiro depósito de antiguidades nórdicas, por meio das Eddas. Então eles se especializaram na poesia escáldica e criaram as sagas. Eles traduziram em sua língua tudo que era publicado no exterior. E eles desenvolveram seu próprio idioma, que é o equivalente do latim para as línguas romanas, e que não mudou faz 1000 anos.


Desde a Independência, que mudanças o senhor viu?
Regis Boyer: Depois da Independência, houve uma tremenda explosão. Islandeses foram americanizados. Com Eric Boury, nós lutamos para que eles continuassem a escrever em Islandês. Eles se modernizaram de forma incrível. Eu vivi na Islândia de 1960 a 1963. No ano passado a Islândia era um dos lugares mais caros do mundo, apesar de que em 1960, a coroa era sem valor. Mas hoje, eles atravessam uma crise sem precedentes.


E sobre sua herança cultural?
Regis Boyer: Os Dinamarqueses fizeram o favor de roubar os manuscritos representando a memória do norte. Eles conseguiram com a ajuda de Árni Magnússon. Todos os manuscritos estão então na Dinamarca.

Quando eles reconheceram a independência, os islandeses assumiram que os dinamarqueses roubaram os manuscritos e requereram o seu retorno. E a Dinamarca concordou com a condição desde que os islandeses construíssem um instituto para a preservação e auxílio à pesquisa.

 
E como ela funciona?
Regis Boyer: Vigdís Finnbogadóttir costumava dizer: "Nós não temos catedrais, castelos ou palácios, mas nós temos as sagas." A pesquisa é intensa, e muito ativa. Islandeses realmente se preocupam com seus manuscritos.

Infelizmente, os Anglo-saxões têm as mãos neles, especialmente os americanos.

 
E a Europa?
Regis Boyer: O trabalho de esclarecimento ainda não terminou. Os franceses cultos sabem o que é a Edda, Poesia Escáldica, sagas, os poetas atômicos*, Laxness**... Mas ainda há muito a fazer... Existem esforços ainda a fazer na Pan-Escandinávia em geral, especialmente com a rica literatura dinamarquesa. Uma literatura que abrange a Europa e a Escandinávia.

Na Noruega e Suécia, o campo ainda é vasto. Eu encabeço um programa de divulgação dessas quatro culturas. Mas nós ausentamos público. Nós não tocamos aquela audiência elitista.

 
O que você pensa que causa a euforia atual em torno da literatura islandesa?
Regis Boyer: No momento, existe um modismo como sentido guiador. Eric Boury tem divulgado escritores muito bons, mas há melhores. Eles podem aproveitar isso.

 
NOTAS:

*: "poetas atômicos" é uma referência a um grupo de poetas modernistas da Islândia do século XX (nota da equipe editorial).
**: "Laxness" é uma referência ao escritor islandês Halldór Kiljan Laxness, famoso durante o século XX (nota da equipe editorial).